Comentários
de A. Amorim
Comentários sobre a reportagem do Diário Catarinense, 24-25 de dezembro de 2011
Os repórteres Maurício Frighetto e Renato Nascimento prepararam uma excelente reportagem sobre os sítios astroarqueológicos existentes na Ilha de Santa Catarina. A reportagem foi matéria de capa da edição do dia 24 e 25 de dezembro de 2011 e aparece nas páginas 40 e 41. Uma vez que fui consultado e que meu nome aparece como uma das fontes da matéria, gostaria de esclarecer a minha participação e apontar algumas correções no texto publicado.
Box Solstícios e Equinócios
"Como a Terra tem uma inclinação de 23° 27' no sentido norte/sul, a incidência dos raios solares muda ao longo do ano. Agora estamos mais perto do astro. Assim, os dias são mais longos do que as noites..."
"No solstício de inverno o Sol está mais próximo do Hemisfério Norte."
Comentário: é verdade que no dia 4 de janeiro (duas semanas após o solstício de verão) a Terra está mais próxima do Sol (cerca de de 147 milhões de quilômetros). Mas este não é o motivo de estarmos no verão ou dos dias serem mais longos que as noites. O que ocorre é: estando o hemisfério sul voltado para o Sol, devido aquela inclinação de 23° 27', o hemisfério sul passará um período de tempo maior recebendo luz solar. Com isso, ele será mais aquecido pela luz solar do que o hemisfério norte.
Por outro lado, no dia 4 de julho (duas semanas após a data do solstício de inverno) a Terra está mais afastada do Sol (cerca de 152 milhões de quilômetros). Mas este não é o motivo de estarmos no inverno, afinal de contas, na mesma época o hemisfério norte terá seu verão. O que ocorre é: o hemisfério sul recebe menos luz solar durante o seu inverno, de modo que o Sol passa um período de tempo menor acima do nosso horizonte, fazendo com que os dias sejam mais curtos do que as noites.
Box O que é Arqueoastronomia
"É uma ciência bastante polêmica."
Comentário: Arqueoastronomia não é uma ciência polêmica, tampouco "bastante polêmica". Não existe a menor dúvida de que egípcios, babilônios, chineses, coreanos, maias, incas e astecas, por exemplo, observavam o céu e registravam os fenômenos astronômicos. Isto é Arqueoastronomia ou astronomia antiga. Talvez os autores confundiram com as recentes descobertas feitas na Ilha de Santa Catarina onde de fato ainda não temos comprovação de que antigos habitantes usassem ou não as ferramentas naturais para contagem de tempo ou para auxiliar nas suas atividades domésticas.
Box Vestígios
"Segundo o IMMA, as gravuras rupestres encontradas na região da Barra da Lagoa são vestígios de que as pedras foram usadas para observação do sol e da lua. De acordo com a arqueóloga Deisi Scunderlick Eloy de Farias, professora da Unisul e autora do livro Panorama Arqueológico de Santa Catarina, não há nenhum indício que comprove a teoria."
Comentário: embora não tenha nenhuma citação direta minha, durante a entrevista eu abordei esta questão e gostaria de esclarecer o que penso neste assunto.
Até prova em contrário, os vestígios rupestres são evidência inequívoca de que, no passado, pessoas frequentaram a área da Pedra do Frade.
As observações atuais evidenciam, de forma inequívoca, que é plenamente possível ver o nascer do Sol na época dos solstícios de inverno e verão nos alinhamentos de Pedra do Frade. Se os acadêmicos tem dúvidas quanto a estas observações, não há problema, pois eles são convidados a testemunhar e observar o fenômeno astronômico que se repete todos os anos.
Agora as questões a serem discutidas são:
Será que aqueles antigos habitantes, que deixaram os vestígios rupestres, tinham consciência destes fenômenos?
Quais são as evidências de que eles realmente usaram estes alinhamentos?
Quais são as evidências de que eles nunca usaram estes alinhamentos?
As hipóteses são falseáveis, portanto, encaixam muito bem numa teoria científica. Lembrando que encontrar evidências de que antigos habitantes tinham conhecimentos básicos de astronomia não seria nenhum "fim-de-mundo", pois até hoje o mais singelo pescador observa a Lua para prever a maré e decidir se vai lançar a rede no mar ou não.
Alexandre Amorim
Astrônomo amador